Muito ouvimos pelos confins da
internet sobre a denominação de terrorista para aqueles que estiveram na luta
armada contra o golpe militar de 1964. Ao questionarmos a violência cometida
pelas Forças Armadas (naquele momento governo ilegítimo e que orientava suas
ações pelo punho de ferro baseados em uma Lei de Segurança Nacional escrita nas
cadeiras da Escola Superior de Guerra) sempre se contrapõe o argumento: “mas e
a violência da esquerda?”,” E o terrorismo?” E finalmente, aquele que talvez
pareça ser o mais icônico ato próximo a terrorismo cometido pela esquerda, “e a morte de
Mário Kozel Filho?”

Antes de expressar qualquer opinião sobre o fato devo colocar em questão premissas que aqui pretendo me orientar:

Antes de expressar qualquer opinião sobre o fato devo colocar em questão premissas que aqui pretendo me orientar:
1 – A guerra é a morte da
política. Violência e democracia são incompatíveis. Quando um Estado ou grupos
organizados se manifestam, militarmente, por uma ou outra ideologia fica claro
que o espaço de discussão e a busca de soluções políticas não é possível, ou
pelo menos vê-se claramente que ambos os lados não querem ceder em pontos
diametralmente divergentes de seus programas ideológicos pensando e visando o
bem comum. Carl Von Clausewitz já afirmava no século XIX “a guerra é a
continuação da política por outros meios” e antes de mais nada, sou contra o
uso da violência.
2 – A violência cometida pelo
Estado é sempre desproporcional frente a combatentes revolucionários. A força e
organização que subsidiam os exércitos regulares sempre são mais robustas
frente às tropas irregulares. A estratégia e a tática que são capazes de
definir um melhor ou pior desempenho em um conflito armado com essa
configuração.
3 – Morrer em combate sempre foi
uma honra para o guerrilheiro de esquerda, tanto quanto o é para o combatente
do Exército Regular. Ou pelo menos assim os ensinam em suas respectivas academias de guerra.
4- Terrorismo mais que uma
definição pronta e simples é um conceito, e como tal é carregado de
historicidade. Tal termo deve ser sempre repensado antes de se usar, afinal, já
carrega em si valores maniqueístas e geralmente de uso muito mal intencionado.
Não que terrorismo não exista, entretanto, transformar toda e qualquer ação
revolucionária em ato terrorista não passa de manipulação e uma forma nada
crítica de se falar sobre esses fatos.
5- Presto homenagem a todos que lutaram com honra e morreram em campo de batalha. Entre tantos nessa situação, Mário Kozel Filho merece todas as considerações da esquerda e da direita. Vítima de uma guerra como tantas outras pessoas, tantos outros soldados e tantos outros combatentes, esse jovem merece sempre ser lembrado para que fique claro que fora da política não há saída para o bem comum. A guerra consome além de vidas os sonhos e a esperança das nações. Que os atos de violência sejam ao longo da história abolidos por todas as nações, ceitas, ideologias, crenças e nações.
A questão central aqui é a
seguinte: em que medida é justo comparar as ações orientadas pela guerrilha com
a repressão utilizada nos quartéis? No Brasil, a repressão utilizou as mais
desumanas táticas para conter o dito avanço revolucionário que visava uma
possível ditadura comunista: torturas, desaparecimentos, voos da morte,
estupros, Inquéritos militares forjados entre tantos outros métodos cruéis.
Morrer em combate nunca foi um
problema para a esquerda armada, seja ela brasileira ou internacional. Ser
julgado à morte por tribunais de exceção nunca assustou um guerrilheiro. Sofrer
o vigor e o rigor da lei burguesa por ter tentado mudar a estrutura de
exploração vigente também nunca foi um bicho papão. O que se condena (e sob
qualquer ponto de vista é inaceitável) é o tratamento que foi dado a esses
combatentes, já em sua rendição ou na condição de prisioneiros de guerra.
Nesse sentido, devemos discutir a
questão do ataque ao Quartel General de São Paulo. Toda guerra é humanamente
cara. Não há defesa ou possibilidade de aceitar uma baixa como algo normal. É
uma vida, sonhos, futuro, desejos, amores e anseios interrompidos de forma
prematura. Todos os adjetivos cabem aos combatentes da Guerrilha do Araguaia
como cabe a Mário Kozel Filho. Cumpriram aquilo que honrosamente propuseram-se
a defender.
Um garoto de 18 anos foi vitimado
pela insana disputa ideológica gerada pela não aceitação de nossa elite militar
e civil de outros pressupostos políticos que não os deles. Um golpe em curso,
perseguições cada vez mais violentas e um aparato repressivo que desde o
primeiro dia contou com linchamento público e tortura a membros da esquerda
(seja ela armada ou não).
Entretanto, entender o ataque da
VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) ao QG do Ex.II como um ato terrorista,
psicopata, vil, sujo e tantos adjetivos que costumamos ouvir, proporciona em
nossa leitura uma série de questionamentos que vão além das manipulações
retóricas que essa mesma elite golpista construiu ao longo dos anos.
Em primeiro lugar, Mario Kozel
Filho não foi assassinado em situações distantes de combate. A própria
instituição militar criou um clima de defesa permanente, a Lei de Segurança
Nacional deixava isso bem claro e nas instruções de combate à guerra
revolucionária é bem explícita a necessidade intervencionista das Forças
Armadas para que não se proliferasse a ideologia de esquerda ou a luta armada.
Ou seja, o Estado brasileiro admitia estar, permanentemente, em guerra.
Segundo, taticamente, atacar o QG
do Ex II não foi uma ação impensada, de desespero para simplesmente assassinar
um soldado. Tinha um objetivo militar tático e estratégico. O alvo foi
selecionado com o objetivo de enfraquecer a força do Exército inimigo. Ora! Se
um Estado declara-se em guerra esperava-se o quê? Matar, torturar e não ser
atacado? Subestimaram o exército inimigo?
Terceiro, Mario Kozel Filho não
era um civil atingido aleatoriamente pela explosão. Ele era um soldado do
Exército Brasileiro, o mesmo Exército que declarou guerra aos grupos então
revolucionários. Ele fazia parte da instituição que resolveu trair a
constituição vigente e retirar através de um golpe um presidente eleito democraticamente
(lembrando que naquela época o vice era eleito, não era como a relação Kinder
Ovo que temos hoje). Sua morte é resultado da ação militar da VPR, mas também é
resultado da luta que os estralados generais brasileiros impuseram para seus
próprios subordinados. Não morreu desarmado, muitos tiros foram desferidos contra o carro em questão, que sequer atingiu seu alvo, sua morte foi em consequência da explosão quando Mário Kozel Filho se aproximou para averiguar o veículo.
Logo, não há sentido querer
entender a explosão de um carro bomba contra um Quartel General como algo
militarmente reprovável. A relação seria melhor aceita se fosse um míssel? O
assassinato de Somoza torna-se menos terrorista aos olhos da direita então? Um
ataque de drones no Oriente Médio que mata inocentes é ou não um ato
terrorista? Uso de granada é ato terrorista? Bomba atômica é ato terrorista?
O que torna então a opção tática
da VPR, ao usar um carro, repito, contra um alvo militar, equiparável às
torturas e mortes causadas por lendárias figuras como Paulo Malhães, Freddie
Perdigão e Brilhante Ustra nos DOI-CODI e na Casa da Morte de Petrópolis?
Não tento relativizar o alto grau de destruição causado por uma morte. É incalculável a contribuição que esse jovem poderia ter dado ao longo de sua vida para todos que o cercavam. O que questiono é a retórica formulada para criminalizar a esquerda como um todo. De maneira cínica alguns defensores da ditadura usam essa ação revolucionária para desprestigiar toda e qualquer legitimidade das reivindicações da esquerda, hoje democrática. Isso é um desrespeito, sobretudo, com a imagem do próprio combatente em questão, que ao morrer em nome das Forças Armadas, hoje tem seu nome atrelado a defesa de torturadores e assassinos que cometeram crimes de guerra em situações que nada tinham a ver com o combate de uma guerra dita justa.
Mas, sinceramente, se a
direita continuar a incorporar esse discurso, vai ter que repensar talvez toda sua retórica
em defesa de guerras ditas justas, como atualmente a atuação americana no
Oriente Médio.
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