domingo, 1 de maio de 2016

O discurso sobre Mário Kozel Filho



Muito ouvimos pelos confins da internet sobre a denominação de terrorista para aqueles que estiveram na luta armada contra o golpe militar de 1964. Ao questionarmos a violência cometida pelas Forças Armadas (naquele momento governo ilegítimo e que orientava suas ações pelo punho de ferro baseados em uma Lei de Segurança Nacional escrita nas cadeiras da Escola Superior de Guerra) sempre se contrapõe o argumento: “mas e a violência da esquerda?”,” E o terrorismo?” E finalmente, aquele que talvez pareça ser o mais icônico ato próximo a terrorismo cometido pela esquerda, “e a morte de Mário Kozel Filho?”





Antes de expressar qualquer opinião sobre o fato devo colocar em questão premissas que aqui pretendo me orientar:

1 – A guerra é a morte da política. Violência e democracia são incompatíveis. Quando um Estado ou grupos organizados se manifestam, militarmente, por uma ou outra ideologia fica claro que o espaço de discussão e a busca de soluções políticas não é possível, ou pelo menos vê-se claramente que ambos os lados não querem ceder em pontos diametralmente divergentes de seus programas ideológicos pensando e visando o bem comum. Carl Von Clausewitz já afirmava no século XIX “a guerra é a continuação da política por outros meios” e antes de mais nada, sou contra o uso da violência.

2 – A violência cometida pelo Estado é sempre desproporcional frente a combatentes revolucionários. A força e organização que subsidiam os exércitos regulares sempre são mais robustas frente às tropas irregulares. A estratégia e a tática que são capazes de definir um melhor ou pior desempenho em um conflito armado com essa configuração.

3 – Morrer em combate sempre foi uma honra para o guerrilheiro de esquerda, tanto quanto o é para o combatente do Exército Regular. Ou pelo menos assim os ensinam em suas respectivas academias de guerra.

4- Terrorismo mais que uma definição pronta e simples é um conceito, e como tal é carregado de historicidade. Tal termo deve ser sempre repensado antes de se usar, afinal, já carrega em si valores maniqueístas e geralmente de uso muito mal intencionado. Não que terrorismo não exista, entretanto, transformar toda e qualquer ação revolucionária em ato terrorista não passa de manipulação e uma forma nada crítica de se falar sobre esses fatos.

5- Presto homenagem a todos que lutaram com honra e morreram em campo de batalha. Entre tantos nessa situação, Mário Kozel Filho merece todas as considerações da esquerda e da direita. Vítima de uma guerra como tantas outras pessoas, tantos outros soldados e tantos outros combatentes, esse jovem merece sempre ser lembrado para que fique claro que fora da política não há saída para o bem comum. A guerra consome além de vidas os sonhos e a esperança das nações. Que os atos de violência sejam ao longo da história abolidos por todas as nações, ceitas, ideologias, crenças e nações.

A questão central aqui é a seguinte: em que medida é justo comparar as ações orientadas pela guerrilha com a repressão utilizada nos quartéis? No Brasil, a repressão utilizou as mais desumanas táticas para conter o dito avanço revolucionário que visava uma possível ditadura comunista: torturas, desaparecimentos, voos da morte, estupros, Inquéritos militares forjados entre tantos outros métodos cruéis.

Morrer em combate nunca foi um problema para a esquerda armada, seja ela brasileira ou internacional. Ser julgado à morte por tribunais de exceção nunca assustou um guerrilheiro. Sofrer o vigor e o rigor da lei burguesa por ter tentado mudar a estrutura de exploração vigente também nunca foi um bicho papão. O que se condena (e sob qualquer ponto de vista é inaceitável) é o tratamento que foi dado a esses combatentes, já em sua rendição ou na condição de prisioneiros de guerra.

Nesse sentido, devemos discutir a questão do ataque ao Quartel General de São Paulo. Toda guerra é humanamente cara. Não há defesa ou possibilidade de aceitar uma baixa como algo normal. É uma vida, sonhos, futuro, desejos, amores e anseios interrompidos de forma prematura. Todos os adjetivos cabem aos combatentes da Guerrilha do Araguaia como cabe a Mário Kozel Filho. Cumpriram aquilo que honrosamente propuseram-se a defender.

Um garoto de 18 anos foi vitimado pela insana disputa ideológica gerada pela não aceitação de nossa elite militar e civil de outros pressupostos políticos que não os deles. Um golpe em curso, perseguições cada vez mais violentas e um aparato repressivo que desde o primeiro dia contou com linchamento público e tortura a membros da esquerda (seja ela armada ou não).

Entretanto, entender o ataque da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) ao QG do Ex.II como um ato terrorista, psicopata, vil, sujo e tantos adjetivos que costumamos ouvir, proporciona em nossa leitura uma série de questionamentos que vão além das manipulações retóricas que essa mesma elite golpista construiu ao longo dos anos.

Em primeiro lugar, Mario Kozel Filho não foi assassinado em situações distantes de combate. A própria instituição militar criou um clima de defesa permanente, a Lei de Segurança Nacional deixava isso bem claro e nas instruções de combate à guerra revolucionária é bem explícita a necessidade intervencionista das Forças Armadas para que não se proliferasse a ideologia de esquerda ou a luta armada. Ou seja, o Estado brasileiro admitia estar, permanentemente, em guerra.

Segundo, taticamente, atacar o QG do Ex II não foi uma ação impensada, de desespero para simplesmente assassinar um soldado. Tinha um objetivo militar tático e estratégico. O alvo foi selecionado com o objetivo de enfraquecer a força do Exército inimigo. Ora! Se um Estado declara-se em guerra esperava-se o quê? Matar, torturar e não ser atacado? Subestimaram o exército inimigo?

Terceiro, Mario Kozel Filho não era um civil atingido aleatoriamente pela explosão. Ele era um soldado do Exército Brasileiro, o mesmo Exército que declarou guerra aos grupos então revolucionários. Ele fazia parte da instituição que resolveu trair a constituição vigente e retirar através de um golpe um presidente eleito democraticamente (lembrando que naquela época o vice era eleito, não era como a relação Kinder Ovo que temos hoje). Sua morte é resultado da ação militar da VPR, mas também é resultado da luta que os estralados generais brasileiros impuseram para seus próprios subordinados. Não morreu desarmado, muitos tiros foram desferidos contra o carro em questão, que sequer atingiu seu alvo, sua morte foi em consequência da explosão quando Mário Kozel Filho se aproximou para averiguar o veículo.

Logo, não há sentido querer entender a explosão de um carro bomba contra um Quartel General como algo militarmente reprovável. A relação seria melhor aceita se fosse um míssel? O assassinato de Somoza torna-se menos terrorista aos olhos da direita então? Um ataque de drones no Oriente Médio que mata inocentes é ou não um ato terrorista? Uso de granada é ato terrorista? Bomba atômica é ato terrorista?

O que torna então a opção tática da VPR, ao usar um carro, repito, contra um alvo militar, equiparável às torturas e mortes causadas por lendárias figuras como Paulo Malhães, Freddie Perdigão e Brilhante Ustra nos DOI-CODI e na Casa da Morte de Petrópolis?

Não tento relativizar o alto grau de destruição causado por uma morte. É incalculável a contribuição que esse jovem poderia ter dado ao longo de sua vida para todos que o cercavam. O que questiono é a retórica formulada para criminalizar a esquerda como um todo. De maneira cínica alguns defensores da ditadura usam essa ação revolucionária para desprestigiar toda e qualquer legitimidade das reivindicações da esquerda, hoje democrática. Isso é um desrespeito, sobretudo, com a imagem do próprio combatente em questão, que ao morrer em nome das Forças Armadas, hoje tem seu nome atrelado a defesa de torturadores e assassinos que cometeram crimes de guerra em situações que nada tinham a ver com o combate de uma guerra dita justa. 


Mas, sinceramente, se a direita continuar a incorporar esse discurso, vai ter que repensar talvez toda sua retórica em defesa de guerras ditas justas, como atualmente a atuação americana no Oriente Médio. 



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