Algumas
propostas educacionais extremamente retrógradas têm ganhado imensa força entre
os partidos, organizações e adeptos do conservadorismo. Com o governo golpista
instaurado e alicerçado por um judiciário politicamente engajado e um Congresso
Nacional majoritariamente contra políticas de bem estar social, a reforma da
educação ganhou notoriedade desde o primeiro dia de interinidade do governo
golpista de Michel Temer.
O espantoso
não é tanto a proposta do governo (o desmonte da educação pública é um sonho
antigo de investidores e uma prática subsequente na política brasileira), mas o
apoio popular a teses mal formuladas que ganham presença na grande mídia. A
propaganda é clara: o ensino é ruim por que o professor não trabalha, o governo
não pode demitir e os custos com isso são altíssimos. Solução? Privatização gradativa
do ensino. Não significa que os mais pobres não terão acesso à educação. Afinal,
o fundamentalista de mercado supõe, contraditoriamente, que o governo deve
oferecer uma bolsa de estudos em forma de Voucher para toda a população e essa
dispor desse recurso da forma que melhor lhe convier. A mágica tem uma explicação:
O serviço público é ruim, o privado é bom. Sempre. Invariavelmente. Sem nenhuma
exceção. Em qualquer parte do planeta.
Intuitivamente,
qualquer um consegue perceber que o problema educacional no Brasil não é fruto
exclusivamente da presença do Estado. Se assim o fosse as nossas universidades
de excelência seriam todas particulares, o que não se comprova. Raríssimas
exceções, quase desprezíveis, as faculdades particulares no Brasil superam as
públicas. Nos últimos anos esse mercado tem crescido sobremaneira, muito pelo
investimento público em bolsas de estudos semelhantes aos tais Vouchers
sugeridos pelo neoliberal, no entanto, devido as práticas empregatícias do
ensino superior particular, nem de longe o professor universitário tem
condições de pesquisa e extensão tão enriquecedoras como no sistema público, o
que torna o ensino superior privado pouco competitivo em relação ao público.
Ato Unificado Contra a PEC 241 dia 24/10/2016 - Brasília
Fonte: Articulação e Resistência
É
notório que a busca pela universidade pública no Brasil não é tão somente em
função da gratuidade, mas sim da qualidade. Fica
então a pergunta: em um contexto latino americano, em que todas as experiências
de desobrigação do Estado para com a educação foram assustadoramente falhas, como o
Brasil consegue engolir um projeto tão mentiroso para a educação? Não pretendo
responder essa pergunta, mas sim lançar bases para pensar o futuro da educação
nos moldes golpistas. Vamos causar uma pequena reflexão.
O
teor das mudanças é de conhecimento da maioria. Mas o real programa para a
educação não trabalha sozinho, ele perpassa por uma série de medidas que
assustam em conjunto. Entre essas podemos destacar “Escola Sem Partido”,
“Reforma do Ensino”, flexibilização das leis trabalhistas, congelamento dos
investimentos sociais por 20 anos via PEC 241 e “reforma da previdência”.
O
encadeamento dessas propostas para a educação é desastroso e fazem parte do
“pacote de maldades” que será colocado na conta do povo. É preciso entender a
lógica de funcionamento da economia, minimamente, para saber o que vem pela
frente. Hoje, mais claro que 20 anos atrás, sabemos por que o jogo de xadrez da
Lei de Responsabilidade Fiscal elegeu o superávit primário como ponto a ser
alcançado. As metas de superávit primário tem como principal função garantir
crescimento para manter o esquema recheado de suspeitas de ilegalidade do
serviço da dívida.
Quando
o país aponta notórios sinais de crescimento é possível conciliar algum
investimento nas áreas sociais e pagamentos excessivos ao serviço da dívida. No
entanto, em períodos de recessão a transferência volumosa de recursos públicos
para banqueiros e rentistas vê-se ameaçada. Antes mesmo de seus privilégios
serem condenados, beneficiários do serviço da dívida exercem pressão para que
sejam garantidos, sem nenhuma perda, seus lucros exorbitantes. É nesse momento
que se sacrificam os investimentos sociais. Tradicionalmente no Brasil três
áreas são afetadas por ajustes fiscais em períodos de recessão: previdência
social, saúde e educação.
Já
em 2015, ainda no governo de Dilma Roussef (se é que houve algum governo nos
anos de 2015 e 2016 até o golpe) 10 bilhões foram cortados da educação. Os
cortes em despesas primárias faziam parte da tentativa de conciliar o
desenvolvimento social com o lucro dos rentistas, ainda assim sem êxito. Tanto politicamente
quanto economicamente, o reajuste fiscal proposto por Joaquim Levy, então
ministro da Fazenda, não surtiram os efeitos esperados. A expectativa era que
uma reforma econômica que frenasse as medidas suicidas do Banco Central fosse
implantada prezando sempre pelo bem estar da população. Com a consolidação do
golpe em 2016, ao contrário do que se esperava, houve uma radicalização dessa
política de desmonte do ainda parco Estado de bem estar social.
A
redução do Estado (discurso amado pelos conservadores e neoliberais) aconteceu
tão somente em áreas tradicionalmente omitidas pelo poder público brasileiro:
fim dos ministérios da Cultura, Educação, Mulheres, Combate à fome, Desenvolvimento
social e também de órgãos de fiscalização e controle como a Controladoria Geral
da União e o aparelhamento da Polícia Federal via imposições do Ministério da
Justiça.
Pronto!
Estado de exceção montado.
Ao
longo do tempo, diversas medidas para criminalizar movimentos sociais e
desestabilizar qualquer atitude contrária ao governo foram providenciadas.
Essas medidas foram obra de um longo trabalho desde as eleições de 2014. Como
exemplo, podemos citar a paralisação da mínima reforma agrária que acontecia
via INCRA. Depois do Tribunal de Contas da União (TCU) constatar
irregularidades de beneficiamento da reforma agrária, ela foi paralisada afetando
diretamente um dos pilares de apoio ao Partido dos Trabalhadores (PT), o
movimento sem terra.
Todas
essas medidas foram possíveis por que as frentes conservadoras congregaram suas
forças para desmontar o programa político (então governista) do PT: mídia,
deputados, senadores, juízes, vereadores, prefeitos, analistas, agentes
econômicos e alguns auto intitulados intelectuais. Um dos maiores erros do PT
foi ter deixado o bem estar social diretamente dependente da sucessiva
reeleição do partido no cargo de presidente. Agora a situação mudou e o governo
ilegítimo de Michel Temer tenta transformar programa de partido em fundamento
constitucional.
Em
uma canetada (Fora) Temer conseguiu no primeiro dia de interinidade
desarticular boa parte dos avanços sociais alcançados nos últimos anos no
Brasil, tenta não incorrer no mesmo erro, levando para o Congresso Nacional a Proposta
de Emenda Constitucional 241, que congela as despesas primárias, reajustadas
tão somente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) por 20
anos. O discurso distribuído pela imprensa é de saúde fiscal através do
controle dos gastos públicos, algo que facilmente convence a população. No
entanto, onde cortar esses gastos? A propaganda tenta fazer crer que, devido ao
piso nacional estabelecido no pacto federativo de 1988 que destina a quantia
mínima para saúde e educação em estados, Municípios e União não haverá cortes nessas
áreas. Entretanto, qualquer um que acompanha, minimamente, a saúde fiscal de
esteados e municípios sabe que os gestores públicos sequer aplicam o piso
estabelecido constitucionalmente.
Além
disso, a PEC 241 não pode ser separada de seu contexto. Sua força não é fechada
em si mesma, mas tantas outras medidas administrativas e legais que a
acompanham. Essa experiência não é novidade no cenário internacional.
Atualmente, grande revolta popular tem causado diversos eventos de extrema
violência no México entre forças do governo e professores. As críticas da Coordinadora
Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE), em geral, se circunscrevem no
modelo político que tenta-se implantar no Brasil:
“Con el calderonato se consolida un modelo educativo acorde a los
intereses de las oligarquías y empresas transnacionales en base a las
propuestas de los organismos internacionales como el FMI, BM, OCDE, que
responde al mercado laboral y las demandas empresariales, para seguir
sosteniendo la dominación y explotación capitalista. El enfoque por
competencias fomenta la formación de sujetos acríticos, ajenos a su realidad
histórica, desvinculados de la necesidades sociales, individualistas, egoístas,
pragmáticos e insensibles a la historia, la cultura y la política.” CNTE
Em
junho, Oaxaca, no México, presenciou cenas de conflitos entre professores e
forças do governo estatal que renderam mais de 100 feridos além de 6 mortos.
Tudo isso por uma reforma do ensino que pretende demitir milhares de
professores e acelerar o motor da privatização da educação. O processo de
reforma do ensino mexicano já está bem mais avançado que o caso brasileiro, mas
a desobrigação que vem sendo montada como proposta para a educação daqui tem
pressupostos muito parecidos, e por isso devemos ficar atentos aos nossos
vizinhos. O Chile, por outro lado, através de movimentos de ocupações
estudantis, garantiu a gratuidade e melhoria do ensino público.
Oaxaca Junho de 2016
O
tripé PEC 241, Reforma do Ensino Médio e Reforma trabalhista terá impacto
direto sobre a educação pública. São medidas que se articulam para um fim com
força constitucional. E é esse o cenário desenhado para os próximos 20 anos. A
aposta de Temer é audaciosa: ele acredita que o povo brasileiro será passivo e
aceitará tais medidas sem nenhuma oposição efetiva.
É
bem verdade que os sindicatos dos professores são extremamente desmobilizados e
eles, que deveriam ser os mais preocupados e defensores da educação pública,
pouco estão organizados, muitos professores até mesmo defendem tais medidas.
Por outro lado, estudantes de todo o Brasil hoje detém o protagonismo do
combate ao retrocesso da educação. São jovens (anacronicamente) conhecidos como
Secundaristas, Estudantes universitários (Universidades Federais e Institutos
Federais), Técnicos administrativos e apoiadores que se uniram em torno da
pauta dos estudantes secundaristas que começou no Paraná.
Ainda
há alguma esperança e o projeto de Estado sem Educação pública pode ser travado
pela força popular.
CED 01 Planaltina DF (Centrão)
Ocupação estudantil



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