sábado, 19 de março de 2016

Manifestações 2016: Reflexões sobre os números (sem números)



É preciso fazer uma reflexão menos distorcida da realidade das manifestações que acontecem no primeiro semestre de 2016.

Mas antes um breve histórico do atual cenário:

As insatisfações populares no Brasil não são novidade. Não existe um "O gigante acordou". O Partido dos Trabalhadores (PT) foi eleito exatamente sob a mesma égide em 2002. Frente à uma política completamente contaminada pela corrupção, que diferente de hoje, não se tinha a esperança de condenação desses mesmos representantes imersos em corrupção e com a situação social do país deplorável, foi na figura do PT que o povo brasileiro viu alguma possibilidade de mudança. Confirmaram que as esperanças eram minimamente atendidas em 2006 e acreditaram em uma continuação do projeto político em 2010, mesmo quando houve, até então, o maior caso de corrupção no governo, o Mensalão.

Em 2013, cansados de esperar por mudanças estruturais no Estado de Bem Estar Social a população se colocou de forma acéfala nas ruas. De acordo com os participantes àquela altura não existia uma liderança do movimento. Desde lá era visível o surgimento de novas lideranças partidárias e de movimentos sociais já constituídos. Aquela multidão (um monstro sem rosto e coração, de acordo com Mano Brown) não queria diálogo, queria ação imediata. O governo viu-se em situação completamente difícil: precisara abalar suas estruturas de governo em nome da pressão popular. O projeto de governo de Lula (mantido por Dilma), aliando-se e concedendo privilégios a personalidades altamente contestáveis (sobretudo Fernando Collor, Renan calheiros e José Sarney) dera sinais de esgotamento frente às necessidades de aprofundamento de uma política social mais inclusiva e que proporcionasse maior bem estar à população. Vale lembrar que a motivação deflagradora dos eventos de 2013 foi o aumento das passagens de ônibus, os famosos 20 centavos.

Nesse momento o PT se mostra como uma não opção. Ainda assim, por falta de opções viáveis (sim, Aécio Neves nunca foi essa opção, muito menos Marina Silva), novamente, o PT consegue manter-se no poder, mas a que custo? Com que governabilidade? 


Instaura-se uma crise política somente comparável com aquela que deu origem à queda de João Goulart e que deflagrou por 21 anos a Ditadura Militar no Brasil.

Daí em diante o movimento que lotou as ruas em 2013 deu lugar a um discurso fascista, mas muito permeável na avaliação política do cidadão médio brasileiro. Um cara que se informa por meios de comunicações oligárquicos, não tem costume com o debate político do jogo democrático, que polariza a conjuntura nacional e que sobretudo isola o Brasil de qualquer convergência ou ingerência internacional. Exemplo disso é a crítica à política econômica no Brasil e a incapacidade de exercer um debate sobre os mecanismos internos de defesa contra os efeitos da crise internacional que vem assolando a Europa e os Estados Unidos desde 2008 e arrastando as economias periféricas dos mercados hegemônicos para o olho do furacão.  


Aquele movimento pelo bem estar social no Brasil deu lugar ao movimento pró Impeachment, algumas vozes dissonantes já o gritavam em 2013, mas virou pauta central a partir de 2014, entoado por grupos como "Movimento Brasil Livre" e "Vem pra Rua", insuflado pela FIESP desde o início e financiados misteriosamente por alguém que até hoje não mostrou sua cara e suas reais intenções.


As eleições deram a presidência à Dilma, mas a governabilidade ao Congresso Nacional. Reelegendo bandidos notórios como Eduardo Cunha, Cássio Cunha Lima  e Aécio Neves, além de construir uma bancada ainda mais rígida contra os direitos sociais. A antiga "Bancada Ruralista" torna-se a "Bancada da Bíblia, Bala e Boi". 

Essa oposição criminosa e golpista tenta aliar-se com sua natural base de apoio, os movimentos sociais pró-Impeachment, mas são timidamente rechaçados pelos participantes (me desculpe, mas quem aceita torturador em passeata, defende Bolsonaro e abre espaço para participação do movimento dos Carecas do Brasil em suas manifestações não tem o direito de expulsar Aécio Neves e a cabeça do PSDB).


Mas a pressão institucional sobre Lula movimenta a esquerda nacional, tira da posição tímida e cômoda aquele militante antigo e resignado que se acomodou com a situação de governo e achava que a democracia por si só era suficiente para garantir a governabilidade de Dilma Roussef mesmo com todo seus erros e equívocos.

Já ficou claro e ninguém tem dúvida sobre a reputação ilibada da presidenta. O mais oposicionista não tem coragem de colocar Dilma como participante ou conivente de claros atos de corrupção. Aliás, foi ela, que no caso de FURNAS, retirou os privilégios que permitiam Eduardo Cunha a fazer a distribuição da corrupção entre sua quadrilha.

O pacote anti corrupção ainda não entrou na pauta de votação na Câmara, mas o frágil Impeachment, sem substância jurídica suficiente sim. O objetivo desse impedimento não é retirar Dilma definitivamente do governo, 180 dias, acreditam os oposicionistas, é o suficiente para "colocar a casa em ordem", ou melhor, se reposicionarem no cenário político atual e com o domínio do Executivo barrarem medidas contra os seus e manterem seus privilégios e esquemas de corrupção.

Então vem 13 de Março de 2016, uma grande, bela, incrível e fascista passeata por todo o Brasil. Para alguns ali era o ambiente perfeito para a derrubada do governo, mas uma semana depois, passeata de proporcional magnitude aconteceu a favor do governo. E eis aqui o argumento final desse artigo.

Se tem uma coisa que aprendi em manifestações desde o início da militância política é que somente anos após o evento a real magnitude numérica desses atos são mais confiáveis. Lembro-me perfeitamente de no calor dos acontecimentos, o governo declarar que a histórica "Marcha dos 100 mil" tinha pouco mais de 40 mil participantes. Lembrando que à época, a principal forma de convocação da militância era a participação exaustiva: panfletos, jornais, meios de comunicação alternativos e por aí vai. Foi uma passeata que conseguiu aglutinar até mesmo os Punks (sem partido e contra qualquer tipo de Estado). Quanta diferença, hoje Carecas do Brasil que se sentem à vontade para participar.

Não importa se foram 3 milhões na paulista dia 13 e 80 mil no dia 18 (acreditem nesses dados quem quiser, por contraste, é impossível esses números estarem corretos)


O que de fato importa é a força simbólica de cada ato.

Definitivamente as instituições estão inclinadas a interpretar  as prerrogativas constitucionais em favor do golpe (vamos ver o que os Supremo Tribunal Federal vai dizer o que é a constituição dessa vez). Polícia Federal muito bem intencionada, mas não isenta, assim como alguns ministérios públicos (instituição essa que condena político corrupto com aposentadoria compulsória e um mísero salário de pouco mais de 22 mil reais por mês)  e um judiciário contaminado por ideologismos baratos, polarizadores e partidários lutam em conjunto com políticos sabidamente criminosos (como Eduardo Cunha) para a derrubada do governo. E contam com a legitimação popular da passeata do dia 13.

Por outro lado, Dilma e Lula esperam manter-se no poder através do apoio de sua entorpecida militância, que no dia 18 deu uma grande resposta às medidas de exceção da justiça brasileira.


E é essa militância que não pode ser ignorada, não por seu número, mas por sua força simbólica. Os meios de comunicação, sabidamente apoiadores do golpe divulgam comparações que não fazem o menor sentido, a não ser para matemáticos e estatísticos. Socialmente, historicamente, culturalmente, menosprezar a força das manifestações do dia 18 e vangloriar a do dia 13 é um erro. Existem questões muito particulares a serem analisadas antes de cair no discurso raso da globalidade midiática.

Há um peso incomparável nos protestos do dia 18: Nunca houve um partido, ou um político que conseguisse reunir centenas de milhares de pessoas nas ruas em uma manifestação pelo governo em um momento como o que vivemos. É bem verdade que o Comício da Central do Brasil de Jango reuniu mais de 100 mil pessoas, entretanto foi sufocado pelas manifestações de rua contrárias às medidas de base poucos dias depois, a famosa "Marcha da Família com Deus pela Liberdade".


Entretanto, a conjuntura histórica é diferente, até pela não adesão das Forças Armadas aos projetos conspiratórios da direita fascista.

Gostaria que refletissem: Houve algum governo que reunisse 500 mil pessoas em sua defesa? FHC? Itamar Franco? José Sarney? Fernando Collor de Melo? A resposta é simples e clara: Não. Único governo que conseguiu em uma situação deplorável de governabilidade, com instituições em guerra declarada ao seu projeto de governo, com exploração midiática forjando e intensificando todo e qualquer escândalo e com a popularidade mais baixa registrada entre os governos recentes concentrar essas milhares de pessoas em torno da manutenção e defesa do seu projeto político foi o governo Dilma Roussef em conjunto com a figura do Ex presidente Lula.



A intenção aqui é muito clara: não estou discutindo os méritos da insatisfação popular, apenas digo que número por número, uma comparação entre as duas manifestações é totalmente descabida. São cenários profundamente diferentes. Aécio, líder do golpe foi rechaçado por seu público, seu eleitorado, estando sob circunstâncias semelhantes ao PT. Lula não. Esse foi conclamado à luta e mostrou-se dotado de uma força política inigualável pelo seu eleitorado. Essa força simbólica não é capaz de livrar o Brasil do golpe, mas mostra que a análise sobre os fatos tem que levar em consideração muitos outros fatores além de números.


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