Há fatos que são (por sua própria natureza) injustificáveis. Não existe
base moral (dentro dos valores ocidentais do século XXI) para justificar,
amenizar ou tornar efêmero o crime de terrorismo. Entretanto, o movimento
conservador no Brasil, tenta difundir uma falsa ideia correlacionando eventos
terroristas de origem fundamentalista islâmica com a esquerda do país. Analogia
totalmente sem sentido, basta analisar, minimamente, os pressupostos marxistas
para entender o que estou falando. É bem verdade que os movimentos de esquerda
tendem a apoiar a causa palestina e a luta contra os absurdos cometidos pelo
Estado de Israel, entretanto, é um abuso, carecido de qualquer boa fé, dizer
que apoiar a causa muçulmana é, fatalmente, apoiar o terrorismo.
Neste sentido, o que proponho hoje não é uma tentativa de discutir se a Charlie Hebdo era um conjunto de heróis franceses que foram barbaramente atacados por parasitas da modernidade motivados por radicalismo religioso anti-democrático, essa não é uma visão
sobre o Oriente Médio, toda sua riqueza e esplendor cultural que compartilho. Na minha avaliação genocídio e terrorismo já são letras mortas,
não perco um segundo do meu dia relativizando esses conceitos ou se houve algum grau de razoabilidade
em um ataque terrorista, por que, definitivamente, não há.
A reflexão mais
complementar para o tema, a meu ver, é: islamofobia. É o sentimento anti-islâmico,
formado pela cultura conservadora ocidental que ganha muita força nos dias atuais, não
apenas no Brasil, mas por todo mundo. Algo que me preocupa bastante, já que,
tendo a aceitar, que durante períodos de excesso, a facção oposta partilha de
um ódio semelhante àquele empregado sobre ela. Para ser claro, hoje o ocidente
suscita ódio à cultura muçulmana, muito em resposta aos últimos fatos relacionados
ao tema: Torres Gêmeas, ataque ao Metrô de Londres, Madri, Al Qaeda, Bin Laden,
ISIS e atualmente o atentado de Paris à equipe do Charlie Hebdo.
O que nunca nos
lembramos (ou nos custa caro lembrar) é que em boa medida os eventos
terroristas atuais são subprodutos da própria extensão de dominação cultural
empregado pelo ocidente civilizador em séculos de história. Só a título de
exemplo, os Estados Unidos da América criou o protótipo da Al Qaeda, treinou e
financiou Osama Bin Laden e mais recentemente deu fôlego aos rebeldes sírios,
que com o passar do tempo, configurou-se basicamente na força que conhecemos
como Estado Islâmico. O sionismo judeu e a criação (muito contestável) do
Estado de Israel, aproveitando-se da desintegração do Império Turco-Otomano, é
uma das razões óbvias que desencadearam esse ódio latente entre ocidente e
oriente muçulmano. No entanto, podemos
avaliar rapidamente o discurso dispensado pela imprensa àqueles que utilizam da
agressão à fé alheia como forma de protesto, ou em linhas mais gerais,
liberdade de expressão e assim relacioná-los com a islamofobia atual.
Lembro-me que,
recentemente, houve uma manifestação feminista que ecoou por muito tempo
motivos para ser contra o radicalismo feminista, ou as chamadas “feminazis”,
assemelhando de forma pejorativa, a causa feminista ao movimento radical da
Alemanha de Hitler. O fato ocorreu na visita do Papa ao Brasil, algumas
mulheres do movimento “Marcha das Vadias”, em conjunto com pessoas ligadas a um
dos movimentos LGBT quebraram imagens de santos católicos, penduraram
cruzes ao corpo e no alto clímax do protesto houve masturbação com crucifixos, além
do beijaço promovido em frente a catedral. Naquela época, as
reações foram assustadoramente conservadoras, em defesa à liberdade de culto,
afirmaram que aquilo era crime e um processo quase inquisitorial foi montado
pela ala conservadora brasileira (que não é pequena). Para o bem dos manifestantes,
estes usavam bala-clavas cobrindo seus rostos, não duvido que fossem assassinados posteriormente por
tal atitude; Por bem, não temos o fato para comprovar minha tese.
Yunka e Joana tiveram
fim mais drástico com ato muito menos rigoroso. Seu protesto se deu em meio ao
culto promovido por Marcos Feliciano, que no ano de 2013 foi figura central nas
discussões a cerca do movimento gay, já que, foi ele, na comissão de direitos
humanos da Câmara dos Deputados, que deu projeção ao projeto de João Campos
conhecido como Cura Gay. Após se beijarem no culto ministrado por Feliciano, as
duas saíram algemadas do local.
Em Madri, duas
ativistas ligadas ao Femen acorrentaram-se a um crucifixo dentro de uma igreja
e foram presas por “delito contra os sentimentos religiosos e de profanação”,
crimes previstos na constituição espanhola. Percebam que nesse caso foi claro o
recado: o cristianismo ocidental não aceita qualquer tipo de usufruto de suas
linguagens para fins de contestação, isso seria uma agressão religiosa e
profanação. Esses são apenas 3 de muitos exemplos pelo mundo a fora, demonstrando
que, em essência, a religiosidade alheia tem que ser respeitada.
Eu não sou religioso,
considero um verdadeiro atraso para o planeta, ainda hoje, levarmos questões religiosas
para a esfera estatal. A discussão sobre o aborto é um exemplo disso. Poucos
avanços nesse sentido são promovidos por pressões da Confederação Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), enquanto se pensarmos o fato, estritamente, sob os
auspícios da saúde pública, é indiscutível os avanços promovidos pela
legalização do aborto, no Uruguai, desde a legalização em 2012, não foi
registrada sequer uma morte em função de abortos (não vou delongar a discussão
nessa postagem sobre o assunto, mas estou me preparando psicologicamente para
isso, todos me odiarão).
Mas quando uma
revista francesa publica charges ridicularizando os maiores símbolos do mundo
islâmico, isso é visto como “liberdade de expressão”. Eu acredito no controle
externo, sempre acreditei que tudo, sem nenhuma exceção, deve ter algum tipo de
controle, inclusive a manifestação de pensamentos. Alguns confundem agressão,
racismo e intolerância com liberdade de expressão. Na minha opinião, é
extremamente benéfico que o racismo seja tratado como crime e não existe justificativa
alguma que possa considerar propagandas racistas como liberdade de expressão.
Há regulações que não
precisam ser exercidas pelo Estado. O bom senso, e a auto censura para alguns
temas seria bem interessante, como no caso de temas religiosos. Volto a repetir
que não tenho a menor inclinação à religiosidade, ainda assim, a respeito. Quero
total independência entre a religião e o Estado, mas reconheço que a sociedade
é dogmática e religiosa. No caso islâmico, vai além, a religião é, praticamente,
o seu conceito de Estado.
A revista Charlie
Hebdo sabia onde estava se metendo. Foram premeditados, atacaram uma cultura de
caso pensado, sabiam que isso dava ainda mais projeção ao periódico. Eram
vistos como destemidos, sobretudo depois do ataque de 2011, em que sua sede foi
incendiada. Diversas ameaças de grupos como a Al Qaeda não foram ignorados,
foram sim aproveitados. Sabiam do perigo que
corriam e não perpetuaram a prática de desrespeito motivados por um sentimento
transgressor, de defesa à liberdade de expressão, apenas seguiram a lógica do mercado,
venderam, levianamente, agressões a uma cultura de mais de um bilhão de
pessoas, mas que pouco é respeitada pelo ocidente.
Em resumo, a Charlie
Hebdo nada mais é do que uma representante legítima das intolerâncias
francesas em relação ao islamismo. Aliás, França é o país de maior rigidez em
se tratando de imigração em comparação a seus vizinhos. Devemos também buscar o
passado obscuro e silenciado sobre a cultura racista francesa, por exemplo, ao
contrário do que a maioria acredita, o primeiro caso de perseguição aos judeus
por um Estado europeu não aconteceu na Alemanha, mas sim na França, o famoso
caso Dreyfuss. É bem verdade que a Charlie faz charges igualmente contestáveis
a outras religiões, mas no caso do islamismo a postura é mais agressiva e
rotineira.
O periódico viu uma
janela de oportunidade e apostou nela, no entanto, o discurso ofensivo da
Charlie não merece ser visto como militância pela liberdade de expressão, mas
sim um exemplo de mau uso deste direito irrevogável e inalienável do homem.
Abaixo, charges da Charlie Hebdo:









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