sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Islamofobia: o perigo do senso comum.

Há fatos que são (por sua própria natureza) injustificáveis. Não existe base moral (dentro dos valores ocidentais do século XXI) para justificar, amenizar ou tornar efêmero o crime de terrorismo. Entretanto, o movimento conservador no Brasil, tenta difundir uma falsa ideia correlacionando eventos terroristas de origem fundamentalista islâmica com a esquerda do país. Analogia totalmente sem sentido, basta analisar, minimamente, os pressupostos marxistas para entender o que estou falando. É bem verdade que os movimentos de esquerda tendem a apoiar a causa palestina e a luta contra os absurdos cometidos pelo Estado de Israel, entretanto, é um abuso, carecido de qualquer boa fé, dizer que apoiar a causa muçulmana é, fatalmente, apoiar o terrorismo.

Neste sentido, o que proponho hoje não é uma tentativa de discutir se a Charlie Hebdo era um conjunto de heróis franceses que foram barbaramente atacados por parasitas da modernidade motivados por radicalismo religioso anti-democrático, essa não é uma visão sobre o Oriente Médio, toda sua riqueza e esplendor cultural que compartilho. Na minha avaliação genocídio e terrorismo já são letras mortas, não perco um segundo do meu dia relativizando esses conceitos ou se houve algum grau de razoabilidade em um ataque terrorista, por que, definitivamente, não há.

A reflexão mais complementar para o tema, a meu ver, é: islamofobia. É o sentimento anti-islâmico, formado pela cultura conservadora ocidental que ganha muita força nos dias atuais, não apenas no Brasil, mas por todo mundo. Algo que me preocupa bastante, já que, tendo a aceitar, que durante períodos de excesso, a facção oposta partilha de um ódio semelhante àquele empregado sobre ela. Para ser claro, hoje o ocidente suscita ódio à cultura muçulmana, muito em resposta aos últimos fatos relacionados ao tema: Torres Gêmeas, ataque ao Metrô de Londres, Madri, Al Qaeda, Bin Laden, ISIS e atualmente o atentado de Paris à equipe do Charlie Hebdo.

O que nunca nos lembramos (ou nos custa caro lembrar) é que em boa medida os eventos terroristas atuais são subprodutos da própria extensão de dominação cultural empregado pelo ocidente civilizador em séculos de história. Só a título de exemplo, os Estados Unidos da América criou o protótipo da Al Qaeda, treinou e financiou Osama Bin Laden e mais recentemente deu fôlego aos rebeldes sírios, que com o passar do tempo, configurou-se basicamente na força que conhecemos como Estado Islâmico. O sionismo judeu e a criação (muito contestável) do Estado de Israel, aproveitando-se da desintegração do Império Turco-Otomano, é uma das razões óbvias que desencadearam esse ódio latente entre ocidente e oriente muçulmano. No entanto, podemos avaliar rapidamente o discurso dispensado pela imprensa àqueles que utilizam da agressão à fé alheia como forma de protesto, ou em linhas mais gerais, liberdade de expressão e assim relacioná-los com a islamofobia atual.

Lembro-me que, recentemente, houve uma manifestação feminista que ecoou por muito tempo motivos para ser contra o radicalismo feminista, ou as chamadas “feminazis”, assemelhando de forma pejorativa, a causa feminista ao movimento radical da Alemanha de Hitler. O fato ocorreu na visita do Papa ao Brasil, algumas mulheres do movimento “Marcha das Vadias”, em conjunto com pessoas ligadas a um dos movimentos LGBT quebraram imagens de santos católicos, penduraram cruzes ao corpo e no alto clímax do protesto houve masturbação com crucifixos, além do beijaço promovido em frente a catedral. Naquela época, as reações foram assustadoramente conservadoras, em defesa à liberdade de culto, afirmaram que aquilo era crime e um processo quase inquisitorial foi montado pela ala conservadora brasileira (que não é pequena). Para o bem dos manifestantes, estes usavam bala-clavas cobrindo seus rostos, não duvido que fossem assassinados posteriormente por tal atitude; Por bem, não temos o fato para comprovar minha tese.

Yunka e Joana tiveram fim mais drástico com ato muito menos rigoroso. Seu protesto se deu em meio ao culto promovido por Marcos Feliciano, que no ano de 2013 foi figura central nas discussões a cerca do movimento gay, já que, foi ele, na comissão de direitos humanos da Câmara dos Deputados, que deu projeção ao projeto de João Campos conhecido como Cura Gay. Após se beijarem no culto ministrado por Feliciano, as duas saíram algemadas do local.

Em Madri, duas ativistas ligadas ao Femen acorrentaram-se a um crucifixo dentro de uma igreja e foram presas por “delito contra os sentimentos religiosos e de profanação”, crimes previstos na constituição espanhola. Percebam que nesse caso foi claro o recado: o cristianismo ocidental não aceita qualquer tipo de usufruto de suas linguagens para fins de contestação, isso seria uma agressão religiosa e profanação. Esses são apenas 3 de muitos exemplos pelo mundo a fora, demonstrando que, em essência, a religiosidade alheia tem que ser respeitada.

Eu não sou religioso, considero um verdadeiro atraso para o planeta, ainda hoje, levarmos questões religiosas para a esfera estatal. A discussão sobre o aborto é um exemplo disso. Poucos avanços nesse sentido são promovidos por pressões da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), enquanto se pensarmos o fato, estritamente, sob os auspícios da saúde pública, é indiscutível os avanços promovidos pela legalização do aborto, no Uruguai, desde a legalização em 2012, não foi registrada sequer uma morte em função de abortos (não vou delongar a discussão nessa postagem sobre o assunto, mas estou me preparando psicologicamente para isso, todos me odiarão).

Mas quando uma revista francesa publica charges ridicularizando os maiores símbolos do mundo islâmico, isso é visto como “liberdade de expressão”. Eu acredito no controle externo, sempre acreditei que tudo, sem nenhuma exceção, deve ter algum tipo de controle, inclusive a manifestação de pensamentos. Alguns confundem agressão, racismo e intolerância com liberdade de expressão. Na minha opinião, é extremamente benéfico que o racismo seja tratado como crime e não existe justificativa alguma que possa considerar propagandas racistas como liberdade de expressão.

Há regulações que não precisam ser exercidas pelo Estado. O bom senso, e a auto censura para alguns temas seria bem interessante, como no caso de temas religiosos. Volto a repetir que não tenho a menor inclinação à religiosidade, ainda assim, a respeito. Quero total independência entre a religião e o Estado, mas reconheço que a sociedade é dogmática e religiosa. No caso islâmico, vai além, a religião é, praticamente, o seu conceito de Estado.

A revista Charlie Hebdo sabia onde estava se metendo. Foram premeditados, atacaram uma cultura de caso pensado, sabiam que isso dava ainda mais projeção ao periódico. Eram vistos como destemidos, sobretudo depois do ataque de 2011, em que sua sede foi incendiada. Diversas ameaças de grupos como a Al Qaeda não foram ignorados, foram sim aproveitados. Sabiam do perigo que corriam e não perpetuaram a prática de desrespeito motivados por um sentimento transgressor, de defesa à liberdade de expressão, apenas seguiram a lógica do mercado, venderam, levianamente, agressões a uma cultura de mais de um bilhão de pessoas, mas que pouco é respeitada pelo ocidente. 

Em resumo, a Charlie Hebdo nada mais é do que uma representante legítima das intolerâncias francesas em relação ao islamismo. Aliás, França é o país de maior rigidez em se tratando de imigração em comparação a seus vizinhos. Devemos também buscar o passado obscuro e silenciado sobre a cultura racista francesa, por exemplo, ao contrário do que a maioria acredita, o primeiro caso de perseguição aos judeus por um Estado europeu não aconteceu na Alemanha, mas sim na França, o famoso caso Dreyfuss. É bem verdade que a Charlie faz charges igualmente contestáveis a outras religiões, mas no caso do islamismo a postura é mais agressiva e rotineira.


O periódico viu uma janela de oportunidade e apostou nela, no entanto, o discurso ofensivo da Charlie não merece ser visto como militância pela liberdade de expressão, mas sim um exemplo de mau uso deste direito irrevogável e inalienável do homem.



Abaixo, charges  da Charlie Hebdo:




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