Por Moacir Liberto
Desde a
reeleição de Dilma Roussef para a presidência do Brasil, talvez o assunto
nacional mais discutido nos meios jornalísticos tradicionais seja o Ajuste
Fiscal. É comum que o cidadão queira
entender mais sobre o assunto, uma vez que por todos os lados se vê ou escuta
essa expressão. Ajuste Fiscal aqui, Ajuste Fiscal ali, Superávit, dívida
pública, juros e algumas outras dezenas de palavras menos frequentes. Curiosas,
as pessoas procuram por informações e, facilmente, as encontram. O problema é
que normalmente os meios de comunicação mais tradicionais costumam ser
tendenciosos ao discorrerem sobre assuntos políticos e econômicos. Um dos
principais tópicos alvo de tendenciosidade são as políticas de corte de gastos
ou austeridade fiscal. Dentro desse tipo de política econômica uma expressão
adquire valor maior: superávit primário.
Muitas vezes
vejo tentativas de explicação sobre o que seria o superávit primário e por quais
motivos uma política de austeridade fiscal seria importante. Na maioria das
vezes, as explicações recaem no que chamo de mito da domesticalização das
contas nacionais. Esse não é um nome oficial, é algo que eu costumo dizer (não
coloque esse nome em alguma prova de economia ou artigo, hein. Escrevo esse
nome aqui pela liberdade que um blog me dá).
O mito
costuma começa assim:
“Ora! O governo
gastou demais, agora precisa poupar. Veja bem...”
Depois
inicia-se a analogia que tem como objetivo fazer o leitor entender de forma
mais fácil o conteúdo indigesto da economia.
“É como na sua
casa. Se você está gastando mais do que ganha, precisa cortar gastos, assim
pode gerar poupança e fazer investimentos ou gastar com qualquer outra coisa. É
por isso que o corte de gastos é importante, entendeu?”
Pronto, está
quase completo, faltam só mais alguns detalhes.
“Se você começa
a se endividar demais, ninguém mais vai querer te emprestar dinheiro, vai ficar
com o nome sujo. Seria o mesmo com o Governo.”
Aí está, agora
sim. O mito está completo.
Pois bem,
afinal, por que isso está errado? É difícil compreender quais seriam os motivos
que tornariam as contas do governo diferentes da nossa, não é mesmo?
Você diz: sim,
afinal tudo é dinheiro e com dinheiro a regra é bem simples, o quanto você
ganha menos o quanto você gasta é o que determina quanto vai sobrar. Não tem
jeito de fugir disso, não é verdade?
Sim, é verdade, basicamente é isso mesmo, mas
existe uma diferença crucial em como as coisas funcionam na sua casa e como elas
funcionam para o tesouro: na sua casa, o quanto você vai ganhar no mês seguinte
não tem uma relação direta com o quanto você gastou no mês anterior, já para o
Governo essa relação é fortíssima.
Vou explicar
melhor.
Você
|
Governo
|
1
- Gasta mais do que ganha
|
1
– Gasta mais do que ganha
|
2
- Corta gastos
|
2-
Corta gastos
|
3
– Gera poupança
|
3
– Desestimula a economia
|
4
- Recessão
|
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5
– Menos arrecadaçao
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6
– Queda na receita do Estado
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7
– Mais dívida
|
(1)Você está gastando mais do que está
ganhando. Tudo bem, (2) corte gastos e poderá entrar em uma situação de (3) geração
de poupança. Simples assim.
Agora vamos
para o caso do governo. (1)O governo está gastando mais do que está ganhando,
ele pode (2)cortar gastos, os cortes (3) desestimulam a economia, indústrias
que precisavam de demanda do Estado param de produzir, beneficiados de
previdência param de consumir, há desemprego o que gera mais receio e menos consumo.
A economia entra num (4) ciclo de recessão. (5)O valor arrecadado de imposto
sobre circulação de mercadorias, renda e outros diminiu. (6) Há queda nas
receitas de Estado. O quanto o governo terá de poupança ainda é o mesmo: o
quanto recebe menos o quanto gasta, mas ao tentar diminuir seus custos,
normalmente diminui mais ainda suas receitas.
Para explicar
sobre a credibilidade de governo, preciso falar sobre o que é o superávit
primário. Esse conceito é puramente contábil e sua forma de cálculo varia ao
longo do tempo. A mudança de maneira de calculo do superávit primário são
conhecidas como manobras contábeis. E por que elas são realizadas? São
realizadas para que o Governo possa gastar mais. O governo não pode
simplesmente gastar e levantar os ombros “gastei mesmo e daí?”? Não,
antigamente podia, mas desde a lei de responsabilidade fiscal, há meta para
superávit primário e ela deve ser respeitada, essa meta está contida todos os
anos na LDO (lei de diretrizes orçamentárias).
Agora você me
pergunta, mas o que é isso? Muda a forma de calcular, é poupança? Pra que serve?
Fica em um cofre esperando uma hora pra usar? Tá, já vou responder.
A forma de
calcular varia, mas a grosso modo calcula-se da seguinte forma: receitas não
financeiras menos gastos não financeiros. Se seu saldo for positivo o valor não
fica quieto ou guardado, ele serve para pagar o juros da dívida pública. Agora ferrou,
quê? O Estado faz os gastos que precisa para se manter (pagamento de
funcionários, transferências, subsídios, previdência), depois, com o que sobrar
ele paga o juros da dívida pública, se sobrar mais um pouco ele paga o
principal (superávit nominal).
Putz, é
importante demais fazer isso então, já que só assim podemos diminuir nossa
dívida. É, só assim pra diminuir mesmo, mas quem disse que precisamos
diminuir, talvez no curto prazo não haja tanta necessidade assim.
Vamos supor
que você empreste dinheiro para alguém, se ele não te pagar na data combinada,
você vai ficar chateado, claro. Mas e se ele pegar emprestado com outra pessoa para
te pagar, você se importaria? Enquanto estiver recebendo seu principal acrescido
dos juros combinados na data devida, está tudo bem pra você, não é verdade? Com
o Estado é a mesma coisa, ele sempre pode rolar a dívida e os devedores não se
importam como ele está fazendo isso. A determinação da taxa de juros em relação
ao risco dos títulos viaja por muitos outros fatores além do estoque da dívida
pública.
Nossa, mas isso
vira uma bola de neve, e chega uma hora que não dá mais pra fazer isso.
Verdade, mas
veja bem. Vamos analisar a situação do Brasil atual, qual a melhor opção: 1 –
política de austeridade colocando a economia em recessão e minando a capacidade
de arrecadação ao longo do tempo até culminar em um cenário catastrófico de
desemprego e endividamento público. OU 2 – Aumento da dívida até o economia se
recuperar, aumentar a capacidade a arrecadação e depois fazer a manutenção da
dívida. Existem algumas técnicas para que cada uma dessas opções não sejam tão
extremas, mas é basicamente isso. A dívida é um meio para um fim ou a dívida é
um fim nela mesma? Essa é a pergunta a ser respondida.

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