
É o desejo de muitos.
Peço
licença para pensarmos juntos um tema delicado.
Sem questionar
a estrutura agrária do Brasil, parcela importante da população brasileira
vocifera ódio contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em
tempos de ondas conservadoras a situação se agrava, não para o MST. Na verdade
apenas fica evidente o que acontece constantemente nas lutas campesinas pelo
Brasil a fora. A onda conservadora se converte em práticas de violência de
maneira mais descarada e com a conivência do Estado.
Nos últimos
dias as denúncias de abusos contra integrantes do MST vieram à tona nas redes
sociais e repercutiu na grande mídia. De acordo com o G1 “Confronto entre MST e
polícia deixa mortos e feridos no sudoeste do PR”, para o portal R7 “Confronto
entre MST e policiais deixa 2 mortos no PR” e para a BandNews “Integrantes do
MST são mortos pela polícia no Paraná”.
Em Rondônia
(em que a coisa não foi grave como no Paraná) as notícias circularam da
seguinte maneira: G1 – “MST é expulso de propriedade e acampados se alojam em
ginásio” e “Acampamento do MST é incendiado um dia após serem expulsos, em RO”.
Esse tipo de manifestação ideológica nos meios de comunicação no Brasil é
constante e constrói no imaginário da população certas (discutíveis) verdades
que pouco são trabalhadas com a real profundidade que necessitam os temas.
Para o espanto
de um analista social, a notícia menos “ideologizada” que se pode encontrar é precisamente
o posicionamento oficial do MST: “Sem Terra são assassinados no Paraná”. As
investigações a cerca do que ocorreu nos acampamentos Dom Tomás Balduíno (PR) e
Hugo Chavez (RO) ainda estão em fase inicial, entretanto, as alegações das
partes e o histórico de violência contra o MST deixa claro de fato o que vem
acontecendo nesses locais.
Em ambos os
casos o relato é muito semelhante: de um lado os Sem Terra, movimento social
organizado que tenta reivindicar a reforma agrária, de outro, grandes
latifundiários protegidos pelo aparelho do Estado e por forças privadas de
segurança. Nosso código civil é burguês, sem dúvida o direito à propriedade
ocupa em nosso ordenamento jurídico a mesma posição que o direito à vida. Essa
lógica mantém o sistema que estamos inseridos: o capitalismo não se sustenta
sem a proteção da propriedade privada.
É claro que a
ocupação de terras improdutivas é um evento fora da lei burguesa. Afinal de
contas, a propriedade, seja dado o uso que for, é direito inalienável na
filosofia do direito que aprovamos enquanto nação. Entretanto, qualquer um que
exercite o pensamento crítico perceberá que o direito não é uma pedra imutável
e que caso fosse, não haveria necessidade de existir instituições como Senado
Federal, Câmara dos Deputados, Câmaras Legislativas dos Estados e Assembleias
Municipais. O direito sobre a propriedade agrária no Brasil tem que ser
rediscutido há pelo menos 200 anos. Essa discussão nunca foi efetuada e um novo
pacto social não foi formado em relação à posse da terra.
Em uma
economia substancialmente agrária, a posse da terra não pode ser tratada como
elemento tangencial do desenvolvimento econômico e social do país. Deveria ser
assunto central. Apresentando superávits estrondosos (mesmo em meio a atual
crise econômica que o país passa) o agronegócio representa o interesse de boa
parte de nossa elite econômica. No entanto, esse modelo de desenvolvimento
voltado para a agroexportação (cara herança colonial) não representa o
interesse da maioria, mas sim a degradação do meio ambiente e o desrespeito à
vida para o enriquecimento de alguns poucos.
A comida na
mesa, aquilo que esperamos do agronegócio, vem de fato da agricultura familiar.
Cerca de 70% do consumo interno de alimentos é abastecido por essa modalidade
produtiva que obedece, rigorosamente, outros critérios que não a experiência
colonial que ainda persiste nas atividades da agroindústria brasileira. Esse
modelo produtivo é adotado pelo MST e talvez por isso motive tanta insatisfação
entre os grandes produtores.
Mais
revoltante que o posicionamento dos grandes agricultores e de sua representação
política, a bancada ruralista (afinal esses setores defendem seus interesses em
uma clara guerra de classes), é espantoso o comportamento de alguns setores da
sociedade que apoiam medidas como assassinato, tortura e outros tipos de
violência contra homens, mulheres, idosos ou crianças que lutam pelo direito ao
acesso a um pedaço de terra para cultivo.
No Brasil,
discutir reforma agrária é literalmente pedir para morrer. Isso não é novidade alguma,
basta ter contato com algum Sem Terra para comprovar essa afirmação. A
estrutura coronelista da política brasileira, apesar de significativos avanços
democráticos nos últimos tempos, nos sertões do Brasil continua intocável. Os
últimos acontecimentos mostram isso claramente.
Os meios de
comunicação afirmam a existência de um “confronto” entre Sem Terra e a Polícia,
outros chegam a adotar como verdade a tese muito mal explicada pela Secretaria
de Segurança Pública do Paraná de que Sem Terras tivessem armado uma emboscada
para gratuitamente assassinar policiais que iam verificar um incêndio no local.
Todos sabem que o MST no Brasil não constitui movimento de guerrilha e não se
posiciona a favor da luta armada. Talvez até por isso seja tão fácil para lattifundiários
formarem pequenas milícias armadas compostas por jagunços para assustar, intimidar,
torturar e até matar militantes do MST.
O resultado da
parca discussão sobre a propriedade agrícola em um momento de avanço fascista
no Brasil é esse: o fim da auto censura para apoiar atrocidades como
assassinatos de trabalhadores. É assustador ver jovens se manifestando nos
comentários dos sites de notícia a favor de tais atos de violência e pedindo
por mais violência.
Eis abaixo alguns exemplos da tolerância política no Brasil:







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