Em tempos de golpe as denúncias quanto ao papel dos meios de comunicação no processo ficam ofuscadas, precisamente, por esse oligopólio da informação constituído por 4 famílias no Brasil (país com 200 milhões de habitantes).
É comum as críticas se dirigirem aos principais agentes de comunicação: Globo, Veja e Folha de São Paulo. Não é novidade que esses grupos tenham assumido (de maneira tímida) que tiveram ligação com o sistema ditatorial no Brasil da década de 1960. Essa herança histórica traz conflitos óbvios para esses grupos em tempos de democracia.
Muitas vezes acusados de serem aqueles que insuflam o golpe em curso contra a presidenta democraticamente eleita Dilma Roussef, alegam prestar tão somente serviços de interesse público, com isenção e imparcialidade. Minimamente entendedores da área das humanidades, sabemos que a imparcialidade é impossível.
Questionar a participação da mídia brasileira na defesa de seus interesses não é o objetivo desse artigo. Aqui pretendo demonstrar métodos claros de conivência midiática com o determinado processo político que estejam a favor (e amplamente favorecidos pelo poder instaurado).

O objeto: Assassinato de Vladimir Herzog;
O ano: 1975;
O Contexto: Ditadura Militar;
No dia 24 de outubro de 1975 "Vlado" como era conhecido pelos amigos se apresentou voluntariamente ao DOI-CODI Ex. II em São Paulo na Rua Tutóia, famoso por ser um importante aparelho de investigação política dos militares e por suas técnicas de obtenção de informação (torturas, chantagens, ameaças e até mesmo estupros). Dali não retornaria com vida. Constou até 2013 que a morte do jornalista foi causada por suicídio. Uma ridícula e absurda simulação de enforcamento manteve-se intocada e adotada pelo discurso oficial até 2013 quando não mais foi possível sustentar essa versão dos fatos.
Em resumo, um jornalista crítico ao regime foi assassinado pela ditadura!
Pesquisador deste período, procurei identificar documentos diversos. Entre os acervos disponíveis, consultei o Acervo Digital da revista Veja, um mecanismo de busca muito intuitivo e precioso para quem quiser usar a revista como material de pesquisa.
Para minha surpresa, da última semana de outubro até dezembro do ano de 1975 não há menção sobre a morte de Herzog na referida revista (nem sei por que me surpreendi, talvez eu esperasse pelo menos algum corporativismo). Mas o pior não foi o silêncio e sim a estratégia para ludibriar o público e redirecionar a notícia de maneira que tentasse abafar o caso.
Traçarei algumas das notícias publicadas pela Veja ao longo das semanas seguintes:
A edição do dia 29 de outubro: Evoca a figura do "Generalíssimo Francisco Franco", ditador espanhol famoso pela violência aplicada aos seus opositores na Guerra Civil Espanhola. Uma grande reportagem em tom de homenagem e preocupação com o futuro daquele país sem a presença de seu generalíssimo. E ao que tudo indica, o grande acontecimento nacional foi a concessão do Ministério das Comunicações cedida a Sílvio Santos (nasce o SBT).
A edição de 05 de novembro destaca a Guerra "Selvagem" no Líbano e uma continuação ao culto à Francisco Franco.
A edição de 12 de novembro traz tão somente um Sepulcral silêncio sobre o caso.
Quando cansei de acompanhar semanalmente os exemplares, apenas coloquei como chave de busca de pesquisa o nome "Herzog". Finalmente encontrei algo!
Entretanto, o Herzog que protagonizava as notícias na veja a partir de então, não era o querido "Vlado", mas sim o embaixador Israelense Chaim Herzog. A segunda intercorrência do nome veio na edição de 24 de dezembro, mas dessa vez tratava-se do cineasta Werner Herzog.
É apenas na revista da virada de ano, do dia 31 de dezembro de 1975 que a Veja vai citar o nome de Vladimir Herzog.
"Num momento profundamente perturbado pela morte, na prisão, do jornalista Vladimir Herzog" (VEJA, 31/12/1975) a Veja se ausentou dessa discussão e tão somente dois meses depois do fato ocorrido esse veículo de comunicação deu algum tratamento à notícia.
Esse exemplo demonstra bem o método de atuação dos meios de comunicação no Brasil. Não apenas o silenciamento, mas a dissimulação e manipulação da informação contribuem para seus interesses junto a determinados setores da elite brasileira, naquele caso, a ditadura e os militares.
Observem que no calor dos acontecimentos a revista se silencia perante qualquer menção ao caso, entretanto, vangloria a trajetória política de um ditador com aproximações ideológicas notáveis do sistema ditatorial brasileiro. Ao longo dos próximos dois meses o sobrenome Herzog é usado em acontecimentos fortuitos, ludibriando o leitor a descentralizar o debate sobre o jornalista e até mesmo causar certa confusão entre o Jornalista, o Embaixador e o Cineasta.
Se o momento era "profundamente perturbado" pela morte de Herzog, por que o silêncio?
Apenas em novembro de 1978 há uma edição da Veja tratando especificamente do assunto.
Isso na minha leitura não é por acaso!
Deixo as conclusões para o leitor (e nem me refiro ao meu leitor - um restrito público de internautas amigos que dignam-se, por amizade, a ler minhas elucubrações).
Nenhum comentário:
Postar um comentário