sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Proposta para a educação: Estado sem Educação



Algumas propostas educacionais extremamente retrógradas têm ganhado imensa força entre os partidos, organizações e adeptos do conservadorismo. Com o governo golpista instaurado e alicerçado por um judiciário politicamente engajado e um Congresso Nacional majoritariamente contra políticas de bem estar social, a reforma da educação ganhou notoriedade desde o primeiro dia de interinidade do governo golpista de Michel Temer.

O espantoso não é tanto a proposta do governo (o desmonte da educação pública é um sonho antigo de investidores e uma prática subsequente na política brasileira), mas o apoio popular a teses mal formuladas que ganham presença na grande mídia. A propaganda é clara: o ensino é ruim por que o professor não trabalha, o governo não pode demitir e os custos com isso são altíssimos. Solução? Privatização gradativa do ensino. Não significa que os mais pobres não terão acesso à educação. Afinal, o fundamentalista de mercado supõe, contraditoriamente, que o governo deve oferecer uma bolsa de estudos em forma de Voucher para toda a população e essa dispor desse recurso da forma que melhor lhe convier. A mágica tem uma explicação: O serviço público é ruim, o privado é bom. Sempre. Invariavelmente. Sem nenhuma exceção. Em qualquer parte do planeta.
               
        Intuitivamente, qualquer um consegue perceber que o problema educacional no Brasil não é fruto exclusivamente da presença do Estado. Se assim o fosse as nossas universidades de excelência seriam todas particulares, o que não se comprova. Raríssimas exceções, quase desprezíveis, as faculdades particulares no Brasil superam as públicas. Nos últimos anos esse mercado tem crescido sobremaneira, muito pelo investimento público em bolsas de estudos semelhantes aos tais Vouchers sugeridos pelo neoliberal, no entanto, devido as práticas empregatícias do ensino superior particular, nem de longe o professor universitário tem condições de pesquisa e extensão tão enriquecedoras como no sistema público, o que torna o ensino superior privado pouco competitivo em relação ao público.


                Ato Unificado Contra a PEC 241 dia 24/10/2016 - Brasília

                 É notório que a busca pela universidade pública no Brasil não é tão somente em função da gratuidade, mas sim da qualidade.    Fica então a pergunta: em um contexto latino americano, em que todas as experiências de desobrigação do Estado para com a educação foram assustadoramente falhas, como o Brasil consegue engolir um projeto tão mentiroso para a educação? Não pretendo responder essa pergunta, mas sim lançar bases para pensar o futuro da educação nos moldes golpistas. Vamos causar uma pequena reflexão.
                O teor das mudanças é de conhecimento da maioria. Mas o real programa para a educação não trabalha sozinho, ele perpassa por uma série de medidas que assustam em conjunto. Entre essas podemos destacar “Escola Sem Partido”, “Reforma do Ensino”, flexibilização das leis trabalhistas, congelamento dos investimentos sociais por 20 anos via PEC 241 e “reforma da previdência”.
                O encadeamento dessas propostas para a educação é desastroso e fazem parte do “pacote de maldades” que será colocado na conta do povo. É preciso entender a lógica de funcionamento da economia, minimamente, para saber o que vem pela frente. Hoje, mais claro que 20 anos atrás, sabemos por que o jogo de xadrez da Lei de Responsabilidade Fiscal elegeu o superávit primário como ponto a ser alcançado. As metas de superávit primário tem como principal função garantir crescimento para manter o esquema recheado de suspeitas de ilegalidade do serviço da dívida.
                
              Quando o país aponta notórios sinais de crescimento é possível conciliar algum investimento nas áreas sociais e pagamentos excessivos ao serviço da dívida. No entanto, em períodos de recessão a transferência volumosa de recursos públicos para banqueiros e rentistas vê-se ameaçada. Antes mesmo de seus privilégios serem condenados, beneficiários do serviço da dívida exercem pressão para que sejam garantidos, sem nenhuma perda, seus lucros exorbitantes. É nesse momento que se sacrificam os investimentos sociais. Tradicionalmente no Brasil três áreas são afetadas por ajustes fiscais em períodos de recessão: previdência social, saúde e educação.
                Já em 2015, ainda no governo de Dilma Roussef (se é que houve algum governo nos anos de 2015 e 2016 até o golpe) 10 bilhões foram cortados da educação. Os cortes em despesas primárias faziam parte da tentativa de conciliar o desenvolvimento social com o lucro dos rentistas, ainda assim sem êxito. Tanto politicamente quanto economicamente, o reajuste fiscal proposto por Joaquim Levy, então ministro da Fazenda, não surtiram os efeitos esperados. A expectativa era que uma reforma econômica que frenasse as medidas suicidas do Banco Central fosse implantada prezando sempre pelo bem estar da população. Com a consolidação do golpe em 2016, ao contrário do que se esperava, houve uma radicalização dessa política de desmonte do ainda parco Estado de bem estar social.
                A redução do Estado (discurso amado pelos conservadores e neoliberais) aconteceu tão somente em áreas tradicionalmente omitidas pelo poder público brasileiro: fim dos ministérios da Cultura, Educação, Mulheres, Combate à fome, Desenvolvimento social e também de órgãos de fiscalização e controle como a Controladoria Geral da União e o aparelhamento da Polícia Federal via imposições do Ministério da Justiça.


                Pronto! Estado de exceção montado.


                Ao longo do tempo, diversas medidas para criminalizar movimentos sociais e desestabilizar qualquer atitude contrária ao governo foram providenciadas. Essas medidas foram obra de um longo trabalho desde as eleições de 2014. Como exemplo, podemos citar a paralisação da mínima reforma agrária que acontecia via INCRA. Depois do Tribunal de Contas da União (TCU) constatar irregularidades de beneficiamento da reforma agrária, ela foi paralisada afetando diretamente um dos pilares de apoio ao Partido dos Trabalhadores (PT), o movimento sem terra.
                Todas essas medidas foram possíveis por que as frentes conservadoras congregaram suas forças para desmontar o programa político (então governista) do PT: mídia, deputados, senadores, juízes, vereadores, prefeitos, analistas, agentes econômicos e alguns auto intitulados intelectuais. Um dos maiores erros do PT foi ter deixado o bem estar social diretamente dependente da sucessiva reeleição do partido no cargo de presidente. Agora a situação mudou e o governo ilegítimo de Michel Temer tenta transformar programa de partido em fundamento constitucional.
                Em uma canetada (Fora) Temer conseguiu no primeiro dia de interinidade desarticular boa parte dos avanços sociais alcançados nos últimos anos no Brasil, tenta não incorrer no mesmo erro, levando para o Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional 241, que congela as despesas primárias, reajustadas tão somente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) por 20 anos. O discurso distribuído pela imprensa é de saúde fiscal através do controle dos gastos públicos, algo que facilmente convence a população. No entanto, onde cortar esses gastos? A propaganda tenta fazer crer que, devido ao piso nacional estabelecido no pacto federativo de 1988 que destina a quantia mínima para saúde e educação em estados, Municípios e União não haverá cortes nessas áreas. Entretanto, qualquer um que acompanha, minimamente, a saúde fiscal de esteados e municípios sabe que os gestores públicos sequer aplicam o piso estabelecido constitucionalmente.
                Além disso, a PEC 241 não pode ser separada de seu contexto. Sua força não é fechada em si mesma, mas tantas outras medidas administrativas e legais que a acompanham. Essa experiência não é novidade no cenário internacional. Atualmente, grande revolta popular tem causado diversos eventos de extrema violência no México entre forças do governo e professores. As críticas da Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE), em geral, se circunscrevem no modelo político que tenta-se implantar no Brasil:

“Con el calderonato se consolida un modelo educativo acorde a los intereses de las oligarquías y empresas transnacionales en base a las propuestas de los organismos internacionales como el FMI, BM, OCDE, que responde al mercado laboral y las demandas empresariales, para seguir sosteniendo la dominación y explotación capitalista. El enfoque por competencias fomenta la formación de sujetos acríticos, ajenos a su realidad histórica, desvinculados de la necesidades sociales, individualistas, egoístas, pragmáticos e insensibles a la historia, la cultura y la política.” CNTE

                Em junho, Oaxaca, no México, presenciou cenas de conflitos entre professores e forças do governo estatal que renderam mais de 100 feridos além de 6 mortos. Tudo isso por uma reforma do ensino que pretende demitir milhares de professores e acelerar o motor da privatização da educação. O processo de reforma do ensino mexicano já está bem mais avançado que o caso brasileiro, mas a desobrigação que vem sendo montada como proposta para a educação daqui tem pressupostos muito parecidos, e por isso devemos ficar atentos aos nossos vizinhos. O Chile, por outro lado, através de movimentos de ocupações estudantis, garantiu a gratuidade e melhoria do ensino público.

Oaxaca Junho de 2016 

                O tripé PEC 241, Reforma do Ensino Médio e Reforma trabalhista terá impacto direto sobre a educação pública. São medidas que se articulam para um fim com força constitucional. E é esse o cenário desenhado para os próximos 20 anos. A aposta de Temer é audaciosa: ele acredita que o povo brasileiro será passivo e aceitará tais medidas sem nenhuma oposição efetiva.
                É bem verdade que os sindicatos dos professores são extremamente desmobilizados e eles, que deveriam ser os mais preocupados e defensores da educação pública, pouco estão organizados, muitos professores até mesmo defendem tais medidas. Por outro lado, estudantes de todo o Brasil hoje detém o protagonismo do combate ao retrocesso da educação. São jovens (anacronicamente) conhecidos como Secundaristas, Estudantes universitários (Universidades Federais e Institutos Federais), Técnicos administrativos e apoiadores que se uniram em torno da pauta dos estudantes secundaristas que começou no Paraná.

                Ainda há alguma esperança e o projeto de Estado sem Educação pública pode ser travado pela força popular.

CED 01 Planaltina DF (Centrão)
Ocupação estudantil

domingo, 1 de maio de 2016

O discurso sobre Mário Kozel Filho



Muito ouvimos pelos confins da internet sobre a denominação de terrorista para aqueles que estiveram na luta armada contra o golpe militar de 1964. Ao questionarmos a violência cometida pelas Forças Armadas (naquele momento governo ilegítimo e que orientava suas ações pelo punho de ferro baseados em uma Lei de Segurança Nacional escrita nas cadeiras da Escola Superior de Guerra) sempre se contrapõe o argumento: “mas e a violência da esquerda?”,” E o terrorismo?” E finalmente, aquele que talvez pareça ser o mais icônico ato próximo a terrorismo cometido pela esquerda, “e a morte de Mário Kozel Filho?”





Antes de expressar qualquer opinião sobre o fato devo colocar em questão premissas que aqui pretendo me orientar:

1 – A guerra é a morte da política. Violência e democracia são incompatíveis. Quando um Estado ou grupos organizados se manifestam, militarmente, por uma ou outra ideologia fica claro que o espaço de discussão e a busca de soluções políticas não é possível, ou pelo menos vê-se claramente que ambos os lados não querem ceder em pontos diametralmente divergentes de seus programas ideológicos pensando e visando o bem comum. Carl Von Clausewitz já afirmava no século XIX “a guerra é a continuação da política por outros meios” e antes de mais nada, sou contra o uso da violência.

2 – A violência cometida pelo Estado é sempre desproporcional frente a combatentes revolucionários. A força e organização que subsidiam os exércitos regulares sempre são mais robustas frente às tropas irregulares. A estratégia e a tática que são capazes de definir um melhor ou pior desempenho em um conflito armado com essa configuração.

3 – Morrer em combate sempre foi uma honra para o guerrilheiro de esquerda, tanto quanto o é para o combatente do Exército Regular. Ou pelo menos assim os ensinam em suas respectivas academias de guerra.

4- Terrorismo mais que uma definição pronta e simples é um conceito, e como tal é carregado de historicidade. Tal termo deve ser sempre repensado antes de se usar, afinal, já carrega em si valores maniqueístas e geralmente de uso muito mal intencionado. Não que terrorismo não exista, entretanto, transformar toda e qualquer ação revolucionária em ato terrorista não passa de manipulação e uma forma nada crítica de se falar sobre esses fatos.

5- Presto homenagem a todos que lutaram com honra e morreram em campo de batalha. Entre tantos nessa situação, Mário Kozel Filho merece todas as considerações da esquerda e da direita. Vítima de uma guerra como tantas outras pessoas, tantos outros soldados e tantos outros combatentes, esse jovem merece sempre ser lembrado para que fique claro que fora da política não há saída para o bem comum. A guerra consome além de vidas os sonhos e a esperança das nações. Que os atos de violência sejam ao longo da história abolidos por todas as nações, ceitas, ideologias, crenças e nações.

A questão central aqui é a seguinte: em que medida é justo comparar as ações orientadas pela guerrilha com a repressão utilizada nos quartéis? No Brasil, a repressão utilizou as mais desumanas táticas para conter o dito avanço revolucionário que visava uma possível ditadura comunista: torturas, desaparecimentos, voos da morte, estupros, Inquéritos militares forjados entre tantos outros métodos cruéis.

Morrer em combate nunca foi um problema para a esquerda armada, seja ela brasileira ou internacional. Ser julgado à morte por tribunais de exceção nunca assustou um guerrilheiro. Sofrer o vigor e o rigor da lei burguesa por ter tentado mudar a estrutura de exploração vigente também nunca foi um bicho papão. O que se condena (e sob qualquer ponto de vista é inaceitável) é o tratamento que foi dado a esses combatentes, já em sua rendição ou na condição de prisioneiros de guerra.

Nesse sentido, devemos discutir a questão do ataque ao Quartel General de São Paulo. Toda guerra é humanamente cara. Não há defesa ou possibilidade de aceitar uma baixa como algo normal. É uma vida, sonhos, futuro, desejos, amores e anseios interrompidos de forma prematura. Todos os adjetivos cabem aos combatentes da Guerrilha do Araguaia como cabe a Mário Kozel Filho. Cumpriram aquilo que honrosamente propuseram-se a defender.

Um garoto de 18 anos foi vitimado pela insana disputa ideológica gerada pela não aceitação de nossa elite militar e civil de outros pressupostos políticos que não os deles. Um golpe em curso, perseguições cada vez mais violentas e um aparato repressivo que desde o primeiro dia contou com linchamento público e tortura a membros da esquerda (seja ela armada ou não).

Entretanto, entender o ataque da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) ao QG do Ex.II como um ato terrorista, psicopata, vil, sujo e tantos adjetivos que costumamos ouvir, proporciona em nossa leitura uma série de questionamentos que vão além das manipulações retóricas que essa mesma elite golpista construiu ao longo dos anos.

Em primeiro lugar, Mario Kozel Filho não foi assassinado em situações distantes de combate. A própria instituição militar criou um clima de defesa permanente, a Lei de Segurança Nacional deixava isso bem claro e nas instruções de combate à guerra revolucionária é bem explícita a necessidade intervencionista das Forças Armadas para que não se proliferasse a ideologia de esquerda ou a luta armada. Ou seja, o Estado brasileiro admitia estar, permanentemente, em guerra.

Segundo, taticamente, atacar o QG do Ex II não foi uma ação impensada, de desespero para simplesmente assassinar um soldado. Tinha um objetivo militar tático e estratégico. O alvo foi selecionado com o objetivo de enfraquecer a força do Exército inimigo. Ora! Se um Estado declara-se em guerra esperava-se o quê? Matar, torturar e não ser atacado? Subestimaram o exército inimigo?

Terceiro, Mario Kozel Filho não era um civil atingido aleatoriamente pela explosão. Ele era um soldado do Exército Brasileiro, o mesmo Exército que declarou guerra aos grupos então revolucionários. Ele fazia parte da instituição que resolveu trair a constituição vigente e retirar através de um golpe um presidente eleito democraticamente (lembrando que naquela época o vice era eleito, não era como a relação Kinder Ovo que temos hoje). Sua morte é resultado da ação militar da VPR, mas também é resultado da luta que os estralados generais brasileiros impuseram para seus próprios subordinados. Não morreu desarmado, muitos tiros foram desferidos contra o carro em questão, que sequer atingiu seu alvo, sua morte foi em consequência da explosão quando Mário Kozel Filho se aproximou para averiguar o veículo.

Logo, não há sentido querer entender a explosão de um carro bomba contra um Quartel General como algo militarmente reprovável. A relação seria melhor aceita se fosse um míssel? O assassinato de Somoza torna-se menos terrorista aos olhos da direita então? Um ataque de drones no Oriente Médio que mata inocentes é ou não um ato terrorista? Uso de granada é ato terrorista? Bomba atômica é ato terrorista?

O que torna então a opção tática da VPR, ao usar um carro, repito, contra um alvo militar, equiparável às torturas e mortes causadas por lendárias figuras como Paulo Malhães, Freddie Perdigão e Brilhante Ustra nos DOI-CODI e na Casa da Morte de Petrópolis?

Não tento relativizar o alto grau de destruição causado por uma morte. É incalculável a contribuição que esse jovem poderia ter dado ao longo de sua vida para todos que o cercavam. O que questiono é a retórica formulada para criminalizar a esquerda como um todo. De maneira cínica alguns defensores da ditadura usam essa ação revolucionária para desprestigiar toda e qualquer legitimidade das reivindicações da esquerda, hoje democrática. Isso é um desrespeito, sobretudo, com a imagem do próprio combatente em questão, que ao morrer em nome das Forças Armadas, hoje tem seu nome atrelado a defesa de torturadores e assassinos que cometeram crimes de guerra em situações que nada tinham a ver com o combate de uma guerra dita justa. 


Mas, sinceramente, se a direita continuar a incorporar esse discurso, vai ter que repensar talvez toda sua retórica em defesa de guerras ditas justas, como atualmente a atuação americana no Oriente Médio. 



Uma saída: aumentar impostos no Brasil


Pra quem já esqueceu, a mídia nem sempre foi dominada por deputados votando em nome da família ou de Deus. Um pouco antes dessa história de impeachment, o assunto recorrente era o tal do ajuste fiscal. A história era que o governo do PT tinha gastado demais, endividado o Brasil e, agora, tinha que fechar a torneira e racionar o dinheiro pra não afundar ainda mais o país. A direita contava essa historinha, a esquerda não compactuava e Dilminha, na esperança de se ver nos agrados dos partidos centrais, fazia de conta que acreditava.
Pois bem, o impeachment, pelo jeito, vai rolar. Temer, provavelmente, vai querer acelerar esse tal de ajuste e a lorota vai voltar. Vão falar de corte de gastos, racionamento e enxugamento da máquina pública. Enfim, é uma transferência de bem estar de uma grande quantidade das pessoas mais pobres para um pequena quantidade de pessoas mais ricas. Justo? Na maioria dos casos, não. Mas se você vestiu aquela camiseta da seleção brasileira e foi desfilar na rua gritando asneiras e acreditando no caminho das maravilhas propostas pelos messias Cunha e Temer, aí tudo bem, assim posso até pensar em justiça.
  Enfim, a questão é que quando a galera começa a cair pesado nesse discurso de ajuste fiscal, uma questão sempre fica pairando no ar e ela é raramente discutida nos principais meios de comunicação: ao invés de cortar gastos, por que não aumentar os impostos? “Aumentar mais, Moacir! Cê tá doido!” Calma, nervosinho. Não pra você, você é pobre, estou falando aumentar pra quem consegue pagar. Eu sei...eu sei...aumentar os impostos num país em recessão ia piorar o cenário de crise e blá blá blá...Esse é o discurso padrão, mas existem saídas. Na verdade, vou mostrar que dá pra aumentar sim e dá pra arrecadar legal. Digo mais, cortar gastos não é nem de longe a saída.


Nem todo imposto é igual


Para começar, tenho que esclarecer uma coisa. Como o próprio título diz: nem todo imposto é igual. Há tipos de impostos que incidem sobre a renda, outros sobre consumo e alguns sobre patrimônio. E adivinhe só...isso faz toda a diferença. Quando alguém fala que deveria aumentar ou diminuir os impostos, não especificar qual categoria é como se um médico tivesse que amputar uma das pernas do paciante, mas não soubesse qual...péssima analogia, mas é quase isso mesmo. A categoria do tributo é extremamente relevante para que se possa chegar aos resultados almejados pelos policy makers (galera que faz essas políticas de aumentar as coisas). Se é importante pra eles, é importante pra nós, só assim dá pra discutir sério uma questão tão importante.
Você aí fazendo seu IR, nervoso e choroso, prometo que não quero tirar seu dinheiro. Mas sabe aquele cara que mora na cobertura de um prédio com uma praia particular, passa metade do ano em Miami, ninguém sabe direito qual a profissão e parece que todas as pessoas ao redor, são, na verdade, funcionários. Sabe esse cara? Pois é, eu gostaria que ele contribuísse um pouco mais. Eu queria que a alíquota de IPTU do apartmento dele fosse maior. Eu queria que ele pagasse mais IPVA sobre os inúmeros carros e que os ganhos financeiros também fossem compartilhados. Claro que seria essencial também que a porcaria do imposto sobre grandes fortunas fosse finalmente regulamentado. E sabe por que eu queria isso? Por que sou invejoso, claro...Claro que não, né. Na verdade é por que só assim seria justo. Quem tem mais deve pagar mais, quem tem menos deve pagar menos. Não é tão difícil entender.


Sensibilidade da atividade econômica


Mas qual o porquê de eu ter falado sobre o IPTU, o IPVA e o Imposto sobre grandes fortunas? Porque são alguns dos tributos mais comuns que incidem sobre o patrimônio! O legal de imposto sobre o patrimônio é que a atividade econômica não sofre tanto quando a alíquota desses impostos é aumentada. Pra explicar isso é bem fácil, mas vou precisar da sua imaginação. É só pensar o seguinte:
Imagine que você vende um serviço, vamos ver...pode ser instalação de equipamentos de segurança, por exemplo. O município vai te cobrar ISS, claro. Num determinado momento o maldito prefeito quer aumentar o tributo, você pode: (1) repassar esse valor pro cliente; (2) você mesmo arcar com ele; (3) ou dividí-lo. Não importa. O fato é que, desconsiderando os benefícios indiretos dos serviços públicos, você que presta o serviço perde um bocado nessa história. Se seu serviço ficar mais caro, vai ter menos gente procurando, se não ficar, resta uma margem menor. Isso tem um impacto grande na atividade econômica, pensa esse fenômeno numa cidade inteira, com todos os prestadores de serviço.
Continue sendo o tal do prestador de serviço. Você tem uma casa e paga o IPTU para o mesmo município. O prefeito, ao invés de aumentar o ISS, aumenta o IPTU. Isso não faria muita diferença no fluxo de serviços e de renda que você teria com seu trabalho, não é verdade? Poderia fazer diferença, claro, mas de forma indireta e em menor grau (muito menor). Numa linguagem mais técnica: a sensibilidade da atividade econômica em relação aos impostos sobre patrimônio é menor do que a sensibilidade sobre os tributos incidentes sobre o consumo. Espero que tenha entendido. Isso é ainda mais dramático quando impomos a regra de que quem tem maior patrimônio, paga mais. Quem tem um patrimônio menor, paga menos. E fica muito mais crítico quando analisamos os impostos sobre ganhos financeiros, ou seja, sobre dinheiro que está fora do círculo de produção.


A Triste Realidade Brasileira




A carga tributária brasileira é algo em torno de 33% do nosso Produto Interno Bruto, o famoso PIB.  A média global dos países associados à OCDE (é um orgão internacional que mede coisas, faz outras...não importa, é país pra caramba associado e você só precisa saber isso) é de mais ou menos 35%. Até aí, tudo bem, né. Não falei nada. Agora, para ilustrar o que disse anteriormente sobre como existe espaço para tributar patrimônio, veja esse dado: a tributação sobre a propriedade no Brasil representa apenas 3% do total recolhido, enquanto na média dos outros países esse valor é de quase 6%. Míseros 3 pontos percentuais parece pouco, mas lembre-se que estamos falando de valores em relação ao PIB, ou seja, em relação à bilhões! É muita coisa. O triste mesmo é saber que 53% do que é arrecadado pelo Brasil é proveniente de bens e serviços, justamente aqueles impostos que te prejudicam. São impostos sobre consumo. A média do mundo é só de 32%. Quando analisamos os impostos sobre transações financeiras, o caso do Brasil também é deprimente: menos de 5%.   
A tristeza em relação à composição tributária brasileira vai muito além dos dados numéricos que mostrei. As heranças são violentamente menos tributadas aqui do que são nos principais países do mundo. Nossa progressividade quase não existe, é extremamente débil. E a cereja do bolo é sempre a mesma história: a porcaria do imposto sobre as grandes fortunas que até hoje não saiu do papel.

Essa tosquice tributária repercute intensamente na economia do país concentrando a renda, prejudicando a criação de empregos, parasitando o empreendedorismo e perpetuando a pobreza. Desse jeito, é óbvio que problemas de recessão vão continuamente assolar o país. O pior de tudo é que quando a coisa aperta, os poderosos, com medo de alguém querer meter a mão nos seus bolsos, logo colocam a boca no trombone e gritão: corte de gastos! Corta-se os gastos e o povo é quem sofre com a depredação dos serviços públicos.  O que quero dizer é que existe sim espaço para aumentar os impostos, mas pra isso acontecer tem que mexer no bolso de quem tem a grana. 

Por Moacir Liberato